Saturday, December 14, 2002

Fui no quiosque arabe da Lagoa ontem. A arvore esta ainda mais linda esse ano. Dois assuntos que conversamos valem ser reproduzidos aqui:

Conversa 1: Almas vazias em embalagens bonitas

- Um livro, que se nao me engano se chama O mito da Seducao, fala sobre como a sociedade em geral se esconde atras de formas perfeitas do corpo e de roupas da moda para esconder uma fraqueza no ser.


Conversa 2: Almas iluminadas em corpos tortos

- Ja aconteceu comigo e com o Fernando. Talvez ja tenha acontecido com voce.

Fernando conta: "Chego para trabalhar e sempre pego o elevador lotado. Antes de parar em cada andar, o ascensorista faz questao de dizer "Tenham um bom dia. Vao com Deus." E' curioso, pois a maioria das pessoas fica sem jeito diante dessa demonstracao de atencao. Poucos respondem algo a altura (que no caso, seria algo bem simples), como, por exemplo "Tenha um dia tambem". A maioria ignora. O ascensorista faz esse gesto, nao como forma de puxar saco. Ele faz com alegria.
Outro dia estava almocando e vi pela janela do restaurante o ascensorista passando na rua. Ele e' manco e tem um problema no braco. Fiquei impressionado como aquela figura "torta" pode ter tanta alegria dentro dele. No mesmo dia, quando voltei para o escritorio e entrei no elevador, me deu vontade de agradecer a ele por estar ali e me fazer lembrar como eu deveria ser mais feliz em relacao as coisas que tenho."

Eu conto: "Estava indo ao cinema com meu pai. Vamos de onibus e no meio do caminho entra uma figura diferente pela porta da frente. E' um semi-homem. Ele nao tem corpo, se arrasta no chao com as maos e vende bala pra sobreviver. Ao entrar no onibus, ele abriu o sorriso. Fazia meses que eu nao via um sorriso de pura felicidade como aquele. Peguei todo o dinheiro que tinha no bolso e coloquei em sua mao. "A senhora nao vai querer uma bala?" Eu nao queria nao. Ele podia ficar com o dinheiro que eu tinha dado + as balas e vender pra outras pessoas, ganhando assim mais dinheiro pra sobreviver. "Prova uma bala. Ta bem gostosa." E abriu um sorriso. "Tudo bem. Me da uma so." Ele nao se deu por satisfeito. "Pega mais uma. Ta uma delicia essa bala." E abriu um sorriso de novo. Nao era o sorriso que me conquistava. Era a felicidade que aquela figura deformada fisicamente emanava. Nem pessoas que sao perfeitas de corpo costumam ter tanta felicidade assim."

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